A premissa de estar atento ao amor que bate a porta de variadas formas ficou distante, distante de tal forma que quando fitamos pelo retrovisor da vida que segue conforme a velocidade permitida pelas vias de fato, o explorador e o objeto explorado em questão são tão distintos entre si que ao olhar para trás logo se conclui que aqueles suspiros, risos, lágrimas e todo o frio na barriga eram virtudes de um ser frágil que em nada se assemelha com o mesmo que hoje observa insensível o playground que deixou prá trás. É um brinquedo em que esse não cabe mais. Tampouco se sente afetado por isso.
Quando tal acontece, é como se toda a nossa inclinação em se sentir atraído por alguém logo expirasse, pois a 'maturidade' está ali com seus mil olhos atentos e com todas as provas possíveis a seu favor, pronta pra provar com números e até dados históricos de que o que a primeira vista se sente é mera atração física, animalesca, impulso, um corpo que fala.
Bye, bye Love. Nada de banquete de signos ... necas de alma gêmea, afinidades e outros fatores que em intervalos pragmáticos e bem alinhados são chamados à longo prazo de amor,
paixão, e outras tantas palavras que se perderam com a globalização ...
O monstro de mil olhos, a maturidade, nos apresenta o mundo das cerimônias e logo nos adaptamos a ele. Ligamos semanas antes de visitar aquele amigo a quem chamávamos aos berros do outro lado da calçada, hesitamos em comer a 1ª fatia da pizza... ficamos tão atarefados e sufocados por normas e etiquetas, rígidos, taciturnos e empacotados na obrigatoriedade de ter uma postura sempre ereta ( pensem o que quiserem), carregamos calados conosco um código crudelíssimo e sem fim de invejar qualquer edição nova da ABNT.
Lá no retrovisor, no achados & perdidos de alguma estação, quiçá a primavera, deixamos empoeirado e irreconhecível o bem mais precioso, que é a capacidade involuntária, como um músculo que se contrai, a capacidade de se apaixonar. Embora a febre que nos cause, se deixar apaixonar é o que de mais saudável há. E não é assim a febre, que vem e expele pra fora do nosso organismo em litros de suor todos os males?
A febre logo se vai, e com certeza o que sobra dos benefícios dessa há de se transformar em amor. E o amor, enquanto não reconhecido e por vezes inadmitido é a força motora e criadora em que maior verdade há. Na justificativa de driblar tais clichês, destes que só o amor constrói (risos!) lá vamos nós reinventá-lo, aproximá-lo de nossa realidade, uma realidade em que possamos sonhar a altura dos nossos sonhos. Tchau mundo, tchau globalização. E isolados somos ainda mais universais.
E vos digo que com todo o seu histórico negativo, este que o monstro de mil olhos, a maturidade, vos apresentará, o melhor ainda é amar.
Aprisionarmo-nos em carapaças que não nossas, são assaz nocivas para a nossa sensibilidade. Ela logo padecerá sufocada. Abafá-la com uma capa sobre a outra e sobre a outra e sobre a outra... Nascerá o dia em que na ânsia de descortiná-las custará a reconhecer aquilo que por tanto tempo abafamos
Aquilo que de tão seu, que de tão particular tanto se escondeu.
Por ora não lhe falta nada, não lhe faz falta o amor, por que só ficou na memória um amor que não faz falta.
Ame, nem que seja a pessoa errada, amadureça o seu amor, converta o monstro.
Há uma espécie de borboleta que numa peregrinação ao norte lhe custa quatro gerações. Porém, a quarta geração faz toda a viagem de volta ao sul. Esta geração é resultado de todas as modificações que se deram no caminho, graças as mudanças climáticas, a escassez e todas as dificuldades apresentadas esta borboleta adquiriu resistência e tolerância, bagagem suficiente para fazer todo o pregresso, voar todo o trajeto.
Esse procedimento é vital que se dê com o nosso amor, não escondê-lo ao primeiro vento, primeira seca. Não se desesperar quando este estiver sem abrigo. Ao contrário, nos é necessário fortalecê-lo. Esse amor certamente terá qualidades suficientes para viver em conjunto com as riquezas e as misérias da longa estação que se anuncia. E será tão feliz quanto o jardim que, um dia, florescerá aberto pronto a recebê-lo.



